Cultura
Júri da Bienal de Veneza demite-se em bloco após admissão da participação da Rússia
A decisão dos organizadores da próxima Bienal de Arte Contemporânea de Veneza, de admitir a participação da Rússia, levou à demissão do júri internacional do certame, esta quinta-feira, anunciou a organização.
"A Bienal de Veneza anuncia que, a partir de hoje, foram recebidas as renúncias do Júri Internacional da 61ª Exposição Internacional de Arte, In Minor Keys, de Koyo Kouoh", refere uma nota no site da Bienal.
O júri era composto por Solange Farkas (presidente), Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi", acrescenta.A Bienal de Arte Contemporânea de Veneza deverá decorrer entre 9 de maio a 22 de novembro.
O jornal italiano La Reppublica referiu que a inauguração oficial, marcada para 9 de maio, foi cancelada.
A demissão em massa acontece apenas nove dias antes da abertura da exposição e após a polémica decisão do júri de excluir artistas de países acusados de crimes contra a humanidade da atribuição do prémio, há uma semana.
Apesar do júri não ter mencionado nenhum país em particular, a exclusão recaiu nomeadamente sobre a Rússia e Israel, devido à emissão de mandados de
detenção contra os seus líderes pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra.
Num breve comunicado publicado esta quinta-feira na e-flux, uma publicação de arte, o júri de cinco pessoas, liderado pela curadora brasileira Solange Farkas, afirmou simplesmente que renunciou “em reconhecimento” ao anúncio feito a 23 de abril de que não iria premiar artistas de países cujos líderes estivessem a ser investigados pelo Tribunal Penal Internacional". A decisão polémica do júri visava sobretudo a participação israelita, mas o presidente russo, Vladimir Putin, também é alvo de acusações de responsabilidade por crimes de guerra cometidos na Ucrânia.
No domingo passado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel reagiu num comunicado divulgado no X, afirmando que a exclusão dos artistas israelitas tinha "transformado a Bienal de um espaço artístico aberto, de ideias livres e ilimitadas, num espetáculo de falsa doutrinação política anti-Israel".
"Julgado por pertencer a uma raça"
O júri atribui ao prestigiado Leão de Ouro a melhor apresentação nacional e reconhece alguns artistas da exposição principal.
Belu-Simion Fainaru, escultor que representaria Israel este ano, afirmou no início desta semana que consultou advogados sobre a decisão do júri da Bienal.
Na quarta-feira, o ministro da Cultura de Itália telefonou a Fainaru para expressar o seu apoio ao artista israelita, segundo um comunicado de imprensa.
Fainaru, de 66 anos, disse em entrevista estar feliz com a demissão do júri. "A decisão deles discriminou-me com base na minha raça", afirmou.
"Sou um artista e tenho os mesmos direitos, e não posso ser julgado por pertencer a um país ou raça", acrescentou Fainaru: "Devo ser julgado apenas pela qualidade e mensagem da minha arte."
Fainaru, de 66 anos, disse em entrevista estar feliz com a demissão do júri. "A decisão deles discriminou-me com base na minha raça", afirmou.
"Sou um artista e tenho os mesmos direitos, e não posso ser julgado por pertencer a um país ou raça", acrescentou Fainaru: "Devo ser julgado apenas pela qualidade e mensagem da minha arte."
Este ano, a 61.ª edição da Bienal de Arte de Veneza, decorre sob o tema In Minor Keys, e acolherá quase uma centena de representações nacionais, uma exposição com 111 participações de todo o mundo, entre artistas e coletivos, e 31 eventos paralelos até 22 de novembro, em vários locais daquela cidade italiana.
Portugal estará representado pelo projeto artístico RedSkyFalls, do artista Alexandre Estrela.
Discórdia também pela Rússia
A presença de Israel na Bienal tem gerado controvérsia desde a invasão militar israelita da Faixa de Gaza, após o ataque liderado pelo Hamas em outubro de 2023. Centenas de participantes da Bienal assinaram petições a pedir aos organizadores do evento que excluam Israel. Na última edição, em 2024, a representante de Israel, Ruth Patir, terminou a sua exposição, afirmando que não a abriria até que fosse assinado um cessar-fogo e um acordo de libertação de reféns.
Mas a participação da Rússia também tem gerado discórdia.
Após o lançamento da invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, os artistas e o curador que representariam a Rússia na edição desse ano desistiram. A Rússia não realizou qualquer apresentação desde então, apesar da organização nunca a ter proibido de participar.
Este ano, e apesar de apelos contra a sua inclusão, a Rússia irá regressar com uma exposição que apresenta sobretudo artistas não russos e que estará patente apenas durante a semana de antestreia, de 5 a 8 de maio.
A presença de Israel na Bienal tem gerado controvérsia desde a invasão militar israelita da Faixa de Gaza, após o ataque liderado pelo Hamas em outubro de 2023. Centenas de participantes da Bienal assinaram petições a pedir aos organizadores do evento que excluam Israel. Na última edição, em 2024, a representante de Israel, Ruth Patir, terminou a sua exposição, afirmando que não a abriria até que fosse assinado um cessar-fogo e um acordo de libertação de reféns.
Mas a participação da Rússia também tem gerado discórdia.
Após o lançamento da invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, os artistas e o curador que representariam a Rússia na edição desse ano desistiram. A Rússia não realizou qualquer apresentação desde então, apesar da organização nunca a ter proibido de participar.
Este ano, e apesar de apelos contra a sua inclusão, a Rússia irá regressar com uma exposição que apresenta sobretudo artistas não russos e que estará patente apenas durante a semana de antestreia, de 5 a 8 de maio.
O pavilhão russo acolhe o projeto The tree is rooted in the sky (A árvore tem raízes no céu, em tradução livre), comissariado por Anastasiia Karneeva, para uma exposição que reúne cerca de 40 artistas, entre eles Lizaveta Anshina, Ekaterina Antonenko, Antonio Buonuario e DJ Diaki.
Em 10 de março, os ministros da Cultura e dos Negócios Estrangeiros de 22 países, entre os quais Bélgica, Suíça, França, Espanha, Alemanha e Ucrânia, manifestaram-se contra a presença da Rússia na bienal, considerando a sua participação "inaceitável nas atuais circunstâncias".
Numa carta conjunta, citada pela agência ANSA, os governantes apelavam à direção da bienal que "reconsidere a participação da Federação Russa na Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza".
Em 11 de março, a Comissão Europeia condenou a decisão da Bienal de Veneza de autorizar a participação da Rússia, referindo que o financiamento da União Europeia fica em risco caso a decisão se mantenha.
c/Lusa
Numa carta conjunta, citada pela agência ANSA, os governantes apelavam à direção da bienal que "reconsidere a participação da Federação Russa na Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza".
Em 11 de março, a Comissão Europeia condenou a decisão da Bienal de Veneza de autorizar a participação da Rússia, referindo que o financiamento da União Europeia fica em risco caso a decisão se mantenha.
c/Lusa